sábado, 6 de julho de 2013

Instantes


           INSTANTES

      Se eu pudesse viver novamente a minha vida, na próxima trataria de cometer mais erros.

      Não tentaria ser tão perfeito, relaxaria mais.

      Seria mais tolo ainda do que tenho sido, na verdade, bem poucas coisas levaria a sério.

      Seria menos higiênico.

      Correria mais riscos, viajaria mais, contemplaria mais entardeceres, subiria mais montanhas, nadaria mais rios.

      Iria a mais lugares onde nunca fui, tomaria mais sorvete e menos lentilha, teria mais problemas reais e menos problemas imaginários.

      Eu fui uma dessas pessoas que viveu sensata e produtivamente cada minuto da sua vida; claro que tive momentos de alegria.

      Mas, se pudesse voltar a viver, trataria de ter somente bons momentos.

      Porque, se não sabem, disso é feita a vida, só de momentos, não percas o agora.

      Eu era um desses que nunca ia a parte alguma sem um termômetro, uma bolsa de água quente, um guarda-chuva e um pára-quedas; se voltasse a viver, viajaria mais leve.

      Se eu pudesse voltar a viver, começaria a andar descalço no começo da primavera e continuaria assim até o fim do outono.

      Daria mais voltas na minha rua, contemplaria mais amanheceres e brincaria com mais crianças, se tivesse outra vez uma vida pela frente.

      Mas, já viram, tenho 85 anos e sei que estou morrendo.

                                    Jorge Luiz Borges

 

(*) O argentino Jorge Luiz Borges, falecido na Suíça em 1987, autor do conto “O Aleph”, entre outros, é considerado um dos maiores escritores do século XX.

 

 

 

 

 

 

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