sábado, 31 de dezembro de 2016

O dia em que eu morri

O dia em que eu morri amanheceu ensolarado. Na verdade, fazia tempos que eu não via um sábado tão ensolarado como aquele. E como você bem sabe, uma  vez que é meu melhor amigo, meus sábados não vinham sendo nada ensolarados. Nem meus sábados, nem meus domingos, nem meus dias da semana. Nada estava mais tendo sentido para mim. Os meus últimos meses de vida tinham servido apenas e tão-somente para colecionar derrotas e insatisfações. Nenhum momento feliz, nenhum momento de prazer, todas as paixões perdidas, nenhuma novidade, nenhuma surpresa, apenas o cotidiano e sua monotonia torturante. Porém, restavam as lembranças...a boa infância quando nos conhecemos - faz tempo, não? - Brincávamos aquelas boas brincadeiras de crianças mas já jogávamos video game também. Íamos à escola juntos, caíamos sempre nas mesmas salas, sempre tirávamos boas notas, embora muita gente me achasse mais inteligente que você - gozado - eu sempre achava o contrário... As paixões vieram também, mas você sempre deu mais sorte que eu - suas paixões sempre se concretizaram - mesmo assim, acho que eu soube gostar de alguém. E, por falar em lembranças, hoje faz exatamente um ano que eu morri. Soam nítidos aos meus ouvidos os comentários das pessoas em torno do meu caixão...."Puxa vida, tão novo, por que fez isso com sua vida?"Que morte horrível, atirar-se do vigésimo andar!" "Ah se ele soubesse, eu o amava tanto", "Vai fazer falta..." "Um artista tão talentoso, tão cheio de dons, tantos projetos em mente..."
Realmente, eu tinha muitos projetos em mente, mas foi apenas uma conjetura da pessoa no dia do meu velório, pois, na verdade, só eu e você sabíamos desses planos de trabalho.
Voltando às lembranças...minha família...os almoços de domingo...as viagens em família...depois as separações necessárias...as mortes necessárias...as paixões já raras...e a nossa amizade sobreviveu a tudo isso! E voltando ao meu derradeiro sábado, como eu já disse, o dia amanheceu ensolarado e eu, acredite (sim, você acredita, você sabe), eu amanheci feliz!! Pudera, eu sabia que aquele seria um dia especial para mim, um dia memorável, como realmente foi. Estava tudo planejado, tudo já arquitetado...Você se lembra do meu sorriso radiante ao lhe abrir a porta do apartamento naquela manhã? Só com você eu posso compartilhar minhas alegrias, acho que sempre foi assim...Dos meus últimos momentos, se eu me lembro?Sim, lembro bem do meu salto na janela do apartamento, a queda... meu corpo estendido no chão, lá embaixo,eu caí com os braços estendidos, meus olhos abertos... estou ouvindo nitidamente os gritos de horror das pessoas: "Chamem uma ambulância!!!", "Socorro!!!", "Um rapaz caiu do prédio!!!", "Não, ele não caiu, ele se jogou!!!" mas antes disso, preciso cumprimentá-lo pelo seu sucesso ao longo desse ano que passou. Aliás, passou rápido, hein? E quantos progressos em sua vida profissional.. todos os planos que você colocou em prática, tudo tão com a sua cara, como as pessoas dizem sempre...Sabe, eu me lembro bem do impacto que a minha morte causou em você, principalmente no meu velório e no meu enterro, aliás, você estava mais elegante que eu, desesperado mas sóbrio...você queria consolar minha mãe, mas ao final ela é quem lhe consolava...uma mãe ganhava um novo filho, um filho ganhava uma nova mãe ...
Meus últimos momentos??? Isso é segredo, como tantos que compartilhamos ao longo dessa tão sólida amizade que construímos... Mas tudo bem, vamos ao gran finale,  embora eu só me lembre exatamente de ter ido abrir a janela e  ajeitar as cortinas... você tinha descido para comprar cigarros, esse seu vício ainda vai te matar, meu amigo, eu não canso de dizer, eu estava indo abrir a janela da sala e escutei um barulho, é o vento que bateu a porta, pensei, você sempre foi meio desligado, deve ter deixado a porta só encostada...e de repente, eu lá em cima ajeitando as cortinas, uma pressão... nas minhas costas....fique tranquilo, meu querido amigo. Mais um segredo nosso que será guardado para sempre. Prometo que nunca contarei a ninguém que foi você quem me matou.

Pensamentos para terminar o ano de 2016

"A confiança perdida é difícil de recuperar. Ela não cresce como as unhas." (Johannes Brahms)

"Não morre aquele que deixou na terra a melodia de seu cântico na música de seus versos." (Cora Coralina)


"A vida é como uma música. Deve ser composta de ouvido, com sensibilidade e intuição. Nunca por normas rígidas." ( Samuel Butler)

"A Terra é insultada e oferece suas flores como resposta." (Tagure)

"Cuidado com despesas inúteis; um pequeno vazamento afunda um navio." (Benjamin Franklin)

"Os desejos e os apegos cegam a mente." (Sathya Sai Baba)

"O remorso é a única dor da alma que nem a reflexão nem o tempo atenuam." (Madama de Stael)

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

"Oculis clausis" (De olhos fechados)



Se quisermos refletir, alguns instantes, no que somos, bem depressa verificaremos que os momentos decisivos da vida não são as horas em que falamos ou aquelas em que agimos perante os homens. As horas mais importantes, para nós, foram as mais silenciosas. É no silêncio da alma que são elaboradas as resoluções aparentemente mais rápidas e é em segredo que se continuam e terminam desagregações e ruínas, e se temperam também, lentamente, as fidelidades, que as ocasiões mostram ser inalteráveis. O que se vê, não é nada, comparado ao que permanece escondido em nós(...) De "A oração para toda hora".

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Pensamentos de hoje

"O pensamento é o escravo da vida, e a vida é o bobo do tempo." (William Shakespeare)

"Ser humilde com os superiores é obrigação, com os colegas é cortesia, com os inferiores é nobreza." (Benjamin Franklin)

"Não se pode ensinar tudo a alguém, pode-se apenas ajudá-lo a encontrar por si mesmo." (Galileu Galilei)

"O sorriso é o idioma do amor universal, qualquer ser entende." (Autor desconhecido)

"O livro é o alimento da alma". (Ziraldo)

"O verdadeiro mérito é como os rios: quanto mais profundo, menos ruído faz." (George Halifax)

"Todo mundo é capaz de dominar uma dor, exceto quem a sente." (William Shakespeare)

"A cura está ligada ao tempo e às vezes também às circunstâncias." (Hipócrates)

"A verdadeira afeição na longa ausência se prova." (Luís de Camões)

"Nas trevas a imaginação trabalha mais ativamente do que em plena luz." (Immanuel Kant)

"O apego é cheio de parcialidades. O amor e a compaixão são imparciais." (Dalai Lama)

"Há quem passe por um bosque e só veja lenha para a fogueira." (Leon Tolstoi)

"A felicidade está na liberdade, e a liberdade, na coragem." (Péricles)


quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

"Olhai os lírios do campo; eles não tecem nem fiam; todavia, lhes digo que nem o rei Salomão em sua glória e esplendor se vestiu como um deles" (Mateus,6)


Poema "Metade pássaro", de Murilo Mendes (Reprodução da obra "Pássaro surreal", de Noell Oszvald) A mulher do fim do mundo Dá de comer às roseiras, Dá de beber às estátuas, Dá de sonhar aos poetas. A mulher do fim do mundo Chama a luz com um assobio, Faz a virgem virar pedra, Cura a tempestade, Desvia o curso dos sonhos, Escreve cartas ao rio, Me puxa do sono eterno Para os seus braços que cantam.


"Ninguém é igual a ninguém.Todo o ser humano é um estranho ímpar." Carlos Drummond de Andrade (Imagem: Reprodução de instalação surreal-onírica de Angela Lergo)


Preciso dizer alguma coisa?


O que tenho para hoje





terça-feira, 23 de agosto de 2016

Dores de hoje

Como muitos poetas já disseram, escrever o que se sente causa muita dor. Perde-se muito do sentimento quando se tenta colocá-lo para fora, pois na verdade, ele pulsa no coração, não está na mente. Portanto, não pode ser tirado.Maiores ainda são as dores do passado que se juntam às do presente. Ideais que não se concretizaram ou não se conquistaram viram traumas do presente, marcas indeléveis....